Flores Santos Leite em entrevista
“Todo o médico é poeta e todo o poeta é médico”
06-12-2018 | por António Gomes Costa
Não existe em S. João da Madeira quem não o conheça. Aos 92 anos Flores Santos Leite, médico e “candidato” a poeta”, vai editar em Janeiro aquele que será o seu primeiro livro de poemas. A sua jovialidade faz dele um homem sem idade. Ainda dá consultas, escreve poemas todos os dias, devora livros, reúne-se diariamente com amigos, dispensa homenagens e quer aprender coisas novas todos os dias. Nesta entrevista recorda o tempo em que ia de burra ver pacientes, do cargo que desempenhou como vereador na autarquia, dispensa o telemóvel e fala dos sonhos que ainda quer realizar.
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«O Reversejar» há muito que dá a conhecer semanalmente a sua escrita nas páginas de ‘O Regional’. Todos estes textos vão agora dar origem aquele que será o seu primeiro livro, que será apresentado em Janeiro de 2019. Que livro vai ser este?
Flores Santos Leite - O livro é composto por poemas que fui escrevendo ao longo dos anos para várias instituições. Este livro é uma espécie de ensaio, principalmente de organização, porque tudo aquilo que escrevia ia para a gaveta, até que os amigos e familiares quase que me obrigaram a publicar este livro, pois não era minha intenção escrever o livro.

Aos 92 anos onde se continua a inspirar para escrever?
Tudo para mim é motivo para escrever. Os contrastes do mundo antigo com o moderno, as mudanças, o avanço da ciência, em todos os aspetos. O poeta, ou melhor, eu sou um candidato a poeta. Gosto de escrever e durante a noite, quando acordo coloco-me a escrever, em vez de tomar um comprimido para dormir.

Escreve há muitos anos. Qual a razão para só agora apresentar o seu primeiro livro de poemas?
Surgiu de uma brincadeira de amigos. Falamos do assunto durante um encontro na mesa do café, mostrei-lhes alguns poemas e disseram-me logo que isto tinha que ficar tudo num livro (risos).

Mas vem muito tarde ou surge na hora certa?
Acho que qualquer hora é hora, pois para mim as horas não contam.

Mas como se vai chamar este livro?
«Penas da Minha Pena». Penas refere-se a mágoas, tristeza de uma pena que escreve e que, muitas vezes, anda à frente das minhas emoções. Trata-se de um livro simples e nada massudo.

Alguém, há dias, dizia-me que escrever é um ato de coragem. Concorda?
É mais do que isso. É uma necessidade do cérebro descarregar aquilo que tem armazenado e é necessário escoar tudo aquilo que foi adquirindo por força da profissão ou da vida.

Mas, sendo assim, em vez da poesia, porque não escolheu a prosa?
A prosa já obriga a uma postura diferente. É mais unilateral, pois obriga-nos a seguir apenas num sentido e eu gosto de abrir em leque…

Que lhe dizem os sanjoanenses acerca dos seus poemas?
Muitas vezes dizem-me que não entendem os meus versos. A mensagem, ou várias mensagens está lá, mas obriga quem está a ler a fazer uma leitura mais profunda. Muitas pessoas passam por mim na rua e dizem-me: não entendo os seus versos. Depois de eu lhes explicar, verificam que, afinal, a mensagem até é simples.
“Aos 10 anos já escrevia para o Jornal da Escola”

Mas como é que define a sua escrita?
Talvez não seja uma leitura muito fácil e de acesso a todos, porque os meus amigos já me disseram para eu escrever para outras pessoas lerem também (risos). Reconheço que gosto de dificultar as coisas. Os meus textos metem muita teologia, filosofia e sempre gostei muito de fazer dançar as palavras, de meter trocadilhos, gosto que os versos tenham uma segunda intenção. Pode ser uma crítica, uma lição ou uma forma de aprendermos.

Está, então, a dizer-me que não se trata de uma leitura fácil, é isso?
Talvez não seja. Os meus versos abordam o escamotear as diferenças entre as sensações e a emoções. Na verdade, eu gosto de dificultar um pouco as coisas na minha escrita, e já me disseram algumas vezes: lês e pensas. Muito tudo isto é porque existem problemas que abordo de várias maneiras. Talvez não o faça da forma mais simples e, possivelmente, isso deve-se porque passo a vida a ler.

Mas, assim sendo, não fica baralhado muitas vezes com aquilo que escreve?
Ui! Muitas vezes (risos). Acontece-me ter que fazer interpretação daquilo que escrevo, principalmente quando escrevo durante a noite, pois tenho na minha cabeça milhares de coisas e tento descarregar tudo.

Que tipo de leitura lhe dá mais prazer?
Leio tudo. Desde grandes autores a artigos muito diversificados, onde se inclui tudo o que envolve a medicina.

Os poemas do «O Reversejar» são os de fácil ou difícil leitura?
São os de mais fácil leitura e muitos deles fazem parte deste livro, que é composto por 150 poemas.



“O Poeta é um fingidor, um habilidoso”



Começou a escrever poesia muito antes de decidir ser médico?
Muito antes. Era eu ainda muito jovem. Para ter uma ideia. Eu aos 10 anos já escrevia para o Jornal da Escola.

A vivência enquanto médico e a relação com a doença, a própria vida, a morte dos doentes, têm influência naquilo que escreve?
Muita, principalmente a morte, porque acompanha sempre a vida duas companheiras inseparáveis. Uma espécie de corrida para ver quem ganha esta maratona e nos meus textos chego à ideia da morte como se fosse vida. Claro que tenho também histórias dos meus doentes contadas em verso, pois eles ensinam-nos muito. O doente, quando fala, é um poema vivo, de tristezas e alegrias e essas histórias permitem-nos fazer e escrever a poesia.

Isso quer dizer que esta nossa conversa também é poesia?
Claro que sim. Quando esta nossa entrevista terminar, vou ter algo para escrever, o mesmo acontece na mesa de um café quando observo por exemplo uma pessoa obesa a comer um bolo maior do que o normal.

Mas explique-me uma coisa: como é que se define a Poesia?
A poesia é uma perversidade constante. O Poeta farta-se de fingir, de imaginar, de julgar que tem emoções, cria as suas próprias emoções e já Fernando Pessoa dizia isso. O Poeta é um fingidor, um habilidoso e repito que, para escrever poesia, não tem que existir inspiração. Eu de um concerto de música ou de um simples prefácio de um livro faço poesia.

Fala da sua profissão e da poesia com muita satisfação. Posso concluir que a medicina e a poesia se completam?
Todo o médico é poeta e todo o poeta é médico, uma vez que a poesia cura muitas vezes as mágoas das pessoas, as tristezas, pois a pessoa que se envolve na poesia esquece e liga-se à terra.

Não concorda quando se diz que poeta só mesmo com inspiração…
Não concordo nada. Poeta é inspiração, conhecimento de vida e científico, estudo... Para se ser poeta temos que ter isto tudo junto.     



“Cheguei a fazer consultas numa garagem e em espigueiros”



Por norma onde é que gosta de escrever?
Eu escrevo em qualquer lugar. Desde a biblioteca em casa, à mesa de um café ou aqui mesmo no consultório, ao ar livre, pois adoro a natureza. Eu todos os dias escrevo mais de três poemas. Uma caneta dura-me muito pouco tempo…

Tem algum poema seu que goste em particular?
Isso é difícil, pois as gavetas estão cheias de muitas coisas que escrevo. Posso destacar um que fala do ferro forjado que encontramos em portões e muitas portas em S. João da Madeira. Trata-se de uma homenagem aos homens que trabalharam na forja deste ferro martelado.

Dá consultas desde 1950, é do tempo em que ia de burra ver pacientes. Fale-me desse tempo…
Como é que sabe disso? (risos). É verdade. Eram tempos muito difíceis e não existiam muitos médicos nessa altura. Eu cheguei a fazer consultas numa garagem e em espigueiros de milho.

Trabalhou vários anos no Hospital de S. João da Madeira e de Oliveira de Azeméis e até chegou a ser Delegado de Saúde. Que opinião tem da unidade de saúde sanjoanense nos dias de hoje?
O nosso Hospital vai tomando uns medicamentos para a falta de saúde e vai andando, pois o Hospital já teve as valências todas. Depois a política entendeu que não devia ser assim e que deveria ser mudado. A medicina mudou e a culpa não é dos médicos. O médico, hoje, tem que obedecer ao computador e a quem os controla. Hoje, aquilo que verificamos é que o doente fala para o computador e não para o médico, que não é mais do que um intermediário. Hoje ainda tenho muitos doentes porque falo com eles, explico-lhes aquilo que eles têm e nunca olho para o relógio. As minhas consultas são o tempo que tiver que ser. O doente tem que se confessar porque quer que lhe tratem da dor que, muitas vezes, é mais moral do que física.

Neste momento só dá consultas no seu consultório. Os seus doentes são fiéis e atravessam gerações…
São doentes fiéis e muitos até dizem vou ao meu Pai ou ao meu velhinho! (risos). Tenho doentes que são assistidos pelos médicos dos nossos serviços sociais e dizem-lhes olhe que vou ouvir primeiro o meu Pai. Eu, ao longo da minha vida, fui sempre fui muito conselheiro e, mais do que dar medicamentos, tiro-lhes os medicamentos. Nada melhor do que uma boa conversa.

Emocionou-se muitas vezes ao dar notícias menos agradáveis aos pacientes?
Muitas, muitas… e os casos das famílias com toxicodependentes mexeram muito comigo, pois são dramas constantes onde eu simplesmente encolhia os ombros, cruzava os braços e ficava a olhar para o doente, sem saber o que lhe fazer…



“Não tenho nem quero depender do telemóvel”



Gosta muito de colecionar. Os livros são a sua prioridade?
Coleciono livros, livros, livros… (risos). Tenho também várias coleções de moedas, selos, bengalas…tudo isto por pura curiosidade, pois sempre gostei de saber a origem das coisas e eu gosto de ir sempre às primeiras origens. Sabe uma coisa que lhe digo: quanto mais sei mais sei que nada sei e mais vontade tenho de saber, pois é mais aquilo que não se sabe do que aquilo que se sabe.

Almoça todas as quartas-feiras com médicos amigos da sua geração e todos os dias se reúne na mesa de um café com outros amigos. Que encontros são estes?
São verdadeiras tertúlias de arte, do conhecimento científico das descobertas, daquilo que vai pelo mundo, contamos anedotas, falamos de gastronomia, de muita literatura, música…

Sei que não tem nem quer andar com telemóvel…
Não tenho nem quero depender do  telemóvel. Fiz esta opção, dispenso e não sinto falta dele. O pior que me pode acontecer é estar numa conversa com alguém que interrompe para atender o telemóvel.

“Tenho ainda muitos sonhos”

O seu nome está ligado a várias instituições da cidade. Acha que S. João da Madeira já lhe prestou a homenagem que acha que merece?
Não preciso de homenagem nenhuma. A melhor homenagem que tenho é a satisfação do dever cumprido e ser respeitado pelas pessoas. A homenagem, muitas vezes, é uma satisfação política e eu não quero nem nunca me interessei por ela. Durante muitos anos, por não ser político, fui sempre prejudicado aqui, em S. João da Madeira. E como não peço favores a ninguém, não preciso nem mereço ser homenageado.

Não gosta de política, mas o certo é que foi Vereador na Câmara de S. João da Madeira antes do 25 de Abril…
Foi um período engraçado! Foi nomeada uma comissão pelas Forças Armadas para ocupar a Câmara. Eu era responsável pelo Pelouro da Cultura. Não existia partidos. Só mesmo uma comissão provisória.

Sei que não dispensa um copo de vinho às refeições e que é um grande conhecedor das boas marcas…
Conheço as marcas todas e antes de o beber quero sempre ver a marca (risos). O vinho faz bem à saúde mas sem exageros, claro. Um bom copo de vinho estimula a mente.

Nesta altura da sua vida o que é que lhe apetece dizer?
Que estou vivo, aprendi muito, no mundo existe mais infelicidade do que felicidade, tenho ainda muitos sonhos e acho que ainda não fiz nada de útil à humanidade. Posso ter feito à sociedade mas não à humanidade e isso eu quero ainda fazer. Gostava que o mundo fosse melhor do que aquilo que é e, confesso que estou preocupado com o futuro dos jovens, o respeito pelas pessoas mais velhas e pelos valores que se vão perdendo. Os nossos idosos ainda não perceberam que as pessoas mais antigas são o ponto de viragem do mundo bom para o mundo mau.

O que é que gostava de dizer aos sanjoanenses?
Que sejam amigos uns dos outros, que não se deixem dividir pelas políticas, que saibam perdoar as pequenas falhas e que sejam um exemplo para todos os outros.

 

Comentários
Anónimo | 07-12-2018 18:10 DR. Flores
Quando era criança foi meu Dr; os anos anos passaram e nao foi à muitos anos que foi o ver onde viu de là adimerada como foi bem tratada onde me veio as boas recordaçaes è um Dr; generoso que esta no meu coraçao pois lembro sempre no tempo que ja passou de ir à pesca a s; Jacinto a ria havia fartura de peixe e dava ao meu Pai Bernadino leva para ti eu digo obrigado S. DR. muitos anos de vida com saude

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